Resenha: “LesBleus – Une Autre Historie de France 1996-2016”

Lançado em setembro de 2016, logo após a última edição da Eurocopa, o documentário mostra de forma brilhante como o futebol reflete na sociedade francesa durante vinte anos, mostrando os pontos altos e baixos da seleção e da nação.

Seleção Francesa campeã da Copa de 98

Entre 1995 e 96, a França foi alvo de ataques terroristas realizados por Khaled Kelkal, francês com ascendência argelina, tornando a imigração um tema muito discutido.

Em 1996, Jean-Marie Le Pen, pai de Marine Le Pen (candidata da Frente Nacional às eleições deste ano e derrotada por Emmanuel Macron), questionou os jogadores da seleção francesa por não cantarem o hino nacional e serem maus cidadãos e não patriotas. Muitos jogadores são de origem de ex-colônias francesas, como Zinédine Zidane e Karim Benzema, que são filhos de argelinos, e por essa e outras razões acabam não cantando a Marselhesa. Porém, isso não significa que somente eles não a cantavam.

Durante a EURO de 96, o debate a respeito da identidade dos jogadores foi ofuscado pela eliminação da seleção francesa na semifinal para a República Tcheca, rendendo inúmeras críticas a Zidane e ao técnico Aimé Jacquet.

Em 1998, a França se prepara para sediar a Copa do Mundo. No dia 12 de julho, o criticado Zidane se torna o novo herói francês com a conquista do mundial. A diversidade não era assunto do momento, apenas a euforia dos torcedores. Surge então um novo apelido para os jogadores: negro/branco/árabe, representando a união. No entanto, para Nathalie Iannetta, conselheira de esportes e da vida associativa de François Hollande, ex-presidente da França, “ao chamá-los de negro/branco/árabe, colocamos cada um numa caixa.” Da mesma maneira, Omar Sy, ator, afirma: “Ganhar uma copa não resolve os problemas do país. O feito dá moral, impulso, mas deve haver uma sequência.”

Em 2000, a seleção chega ao seu auge com a conquista da Eurocopa. Ela era o símbolo da França, um motivo de orgulho para o povo, o que na opinião de Lilian Thuram, ex-jogador da seleção, os impediu de questionar a sociedade.

Semanas após o atentado às Torres Gêmeas, nos EUA, haveria um amistoso entre França e Argélia para simbolizar a harmonia entre as nações 40 anos após a guerra de independência argelina. De acordo com Karim Nedjari, jornalista, esperavam que o futebol curasse feridas ainda abertas da guerra. O jogo foi interrompido aos 75 minutos por conta de uma invasão generalizada. Mais de 200 jogadores entraram no gramado. O jogo nunca foi reiniciado.

Na Copa de 2002, na Coréia, a seleção francesa foi recebida com festa e era favorita na competição. Entretanto, não passou da fase de grupos. Em 2004, na EURO, não conseguiram vencer a Grécia e pararam nas quartas de final.

Porém, em 2006, a euforia estava de volta. Zidane jogaria sua última Copa do Mundo. Após vencer Espanha, Brasil e Portugal no mata-mata, restava somente um jogo para o título. O camisa 10, no entanto, foi expulso de campo por conta de uma cabeçada em Materazzi na prorrogação, mostrando seu lado humano ao cometer tamanho erro. O jogo foi para os pênaltis e a Itália se consagrou campeã do mundial pela quarta vez. Zidane, posteriormente, foi perdoado pelo povo francês.

A geração vitoriosa daria espaço ao nascimento de uma nova leva de jogadores, entre eles Benzema e Sami Nasri. Contudo, na EURO 2008, eles caíram na fase de grupos sem vencer nenhuma partida. Um fracasso.

Em 2009, na repescagem das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, a França disputava a vaga contra a Irlanda. Empatado em 1 a 1 no placar agregado, o jogo foi para a prorrogação. Thierry Henry domina a bola com a mão e cruza para seu companheiro marcar o gol e classificar a França à Copa. Porém, o povo francês se recusa a perdoá-lo. “O gol de Maradona foi a mão de Deus e de Henry, a do diabo”, diz Arsène Wenger, técnico do Arsenal.

Na Copa, mais um fracasso. Não venceram uma partida. Assim, os problemas internos ficaram explícitos com a discussão entre o atacante Anelka e o técnico Domenech no vestiário, durante o intervalo de uma das partidas, em que o jogador teria ofendido o treinador. Anelka acaba banido da seleção. Com isso, o resto do grupo se solidariza por ele e decide fazer uma greve. Sem treinos, sem resultados, e a seleção francesa acaba eliminada.

Laurent Blanc assume o cargo de treinador. No entanto, em 2011, a Federação Francesa de Futebol queria limitar o número de jogadores com dupla cidadania, e Blanc se mostrou a favor. O projeto causou muita indignação popular pois mirava somente jogadores do norte e centro da África, e por isso foi visto como uma medida discriminatória.

No ano seguinte, na EURO 2012, a seleção perdeu para a Espanha nas quartas de final e o técnico foi demitido. Didier Deschamps, capitão da conquista do mundial de 98, é contratado. Ele estabeleceu uma nova conexão entre torcida e jogadores, muito diferente dos anos anteriores. Mas, em 2014, no mundial no Brasil, pararam nas quartas de final para a Alemanha.

Em janeiro de 2015, a redação do “Charlie Hebdo”sofreu um ataque em um ato terrorista. Em novembro, durante um amistoso entre França e Alemanha, 130 pessoas foram mortas nas ruas ao redor do Stade de France e no Bataclan. Assim, mais uma vez o debate acerca da identidade nacional volta à tona, já que alguns terroristas eram de origem francesa.

Além disso, outro escândalo afeta a seleção: Karim Benzema é suspeito de ajudar na tentativa de extorquir dinheiro, isto é, chantagear alguém. O alvo, seu companheiro de seleção Mathieu Valbuena.

Na Eurocopa de 2016, em casa, o povo francês estava em festa. Benzema não estava presente, mas a euforia continuava a mesma. A França estava na final e o adversário era Portugal, uma equipe teoricamente mais fraca. Entretanto, Les Bleus saem derrotados.

Para Gabriel Pellegrine, estudante de Jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie, o documentário é uma excelente oportunidade para compreendermos como o esporte pode alterar a dinâmica social de um país. “O filme mostra que a falta de sucesso no esporte traz à tona problemas existentes na sociedade que muitas vezes ficam mascarados”, diz.

Para mim, o documentário é impecável, perfeito. A seleção francesa teve e tem um dos melhores times do mundo, mas ainda falta alguma coisa para conquistar um título novamente. Podemos elencar duas gerações desde 1996: a primeira, de Zinédine Zidane, e a segunda que dura até hoje, de Benzema, Pogba, Evra, Griezmann, entre outros.

A França poderia ter alcançado facilmente um sucesso maior no século XXI, assim como faz a Alemanha desde 2002, mas na minha opinião isso não aconteceu por conta dos problemas sociais e políticos do país que afetaram o futebol. Como disse François Hollande, “os políticos não devem ditar o que a seleção faz, nem os jogadores ditar a política de um país, cada um cuida do que é seu.”

Texto por Gustavo Iglezias.

Paulistana, apaixonada por futebol e pelo Palmeiras desde pequena. Amante de Beatles e há 20 anos sendo a pessoa mais chorona do mundo.