Crônica Esportiva: Na hora do gol

Sempre guardarei na memória aquele fatídico 3 a 2 do Santos em cima do Corinthians, no Morumbi, no final de 2002, que garantiu o título brasileiro ao time santista.

–É pênalti pai, pênalti no Robinho –  eu gritava e pulava ao lado do meu pai, que parecia nervoso e apreensivo. Robinho na bola. Correu. Bateu. Gol. Na hora do gol não há perna que não pule, não há boca que não grite, não há braço que não se erga, não há quem não se emocione. Na hora do gol, o pai ergue o filho, o filho abraça o pai, o pacote de pipoca voa, é gol. A torcida explodiu aos berros, a alegria contagiou.

Os braços do meu pai me ergueram para os céus, e ele mostrou a todos, naquele momento, os maiores orgulhos de sua vida.

O tempo foi passando, eu fui crescendo e os compromissos de trabalho do meu pai foram tomando conta da agenda. Eu fui “deixado de lado” por um bem maior, pelo dinheiro que garantiria o meu futuro. Ir ao estádio nos finais de semana ficou completamente esquecido. Minha relação com ele nunca mais foi a mesma. Sempre senti que o nosso maior momento de conexão e carinho se dava ali, no estádio, na hora do gol.

Em minha última visita ao estádio do Pacaembu, nesta quarta, vi pai e filho sentados esperando ansiosamente pelo começo partida. Lembrei do meu falecido pai. Durante os primeiros 45 minutos, confesso que o que mais me chamou atenção foram as reações de alegria dos dois torcedores quando o time ia para o ataque, e o medo de quando o time adversário retrucava. No intervalo, não aguentei de curiosidade e fui conhecer os meus admirados do primeiro tempo. Seu José, pequeno comerciante da cidade, levava pela primeira vez seu filho, Otávio, ao histórico Pacaembu, para ver o seu time de coração, o Santos, disputar uma partida.

Após a breve conversa, resolvi ver o segundo tempo ao lado deles. Seria uma grande emoção conseguir reviver essa lembrança da minha infância, vendo pai e filho se abraçando e comemorando o gol, como eu já fiz com meu pai algumas vezes anos atrás. O grande problema é que o gol não chegava. Era bola na trave em um chute de longe, era defesa do goleiro na batida da falta, era zagueiro que tirava em cima da linha. A bola não queria entrar.

O jogo terminou 0 a 0. Santos fora da competição. Torcida adversária comemorando. Me despedi deles logo em seguida e segui para a saída do estádio observando pai e filho saindo tristes e magoados com o resultado do jogo. Na volta para casa, dentro do carro, eu também poderia estar triste por não ter rememorado minha infância, por não ter me visto com o meu pai naquele momento. Mas não, eu estava pensativo.

Será que aqueles dois torcedores algum dia voltariam ao estádio juntos? Será que aquele menino terá uma lembrança de seu pai, como eu tenho do meu? Sei de uma coisa para hoje e sempre: na hora do gol, eu lembro do meu pai.

Texto por Guilherme Pansonato.

 

Paulistana, apaixonada por futebol e pelo Palmeiras desde pequena. Amante de Beatles e há 20 anos sendo a pessoa mais chorona do mundo.