Aprender a caminhar de novo

Aprender a caminhar de novo

– É alto, né. Quem pulou daí só podia ser louco, Deus me livre.

Maristella observou aquele senhor caminhar para longe. A voz rouca, as rugas pronunciadas e a pele marcada denunciavam a idade avançada do homem que ela sequer conhecia, mas que fora capaz de deixar um sentimento amargo ao seu redor.

Dali, do alto daquele prédio, era possível ver a cidade inteira. Uma queda, de fato, seria fatal. E foi.

Maristella se lembrava daquele dia como se tivesse sido semana passada. Agora, com seus 43 anos de idade, mestrado e doutorado completos, solteira por opção e sem filhos, ela se recordava de como era ter seus 20 e poucos anos e sentir absolutamente nada. Era como se dentro dela batesse algo gelado e automático, que como máquina faria seu trabalho programado e apenas isso. Em muitos momentos seu coração se aquecera; após aquele dia, nunca mais.

Ele não era só um amigo ou companheiro que acordava junto a ela todos os dias de manhã. Não era só um corpo que aquecia o seu durante as noites e que se encaixava perfeitamente naqueles momentos de euforia louca. Maristella sequer podia explicar como aquilo teria acontecido, mas aconteceu.

Há momentos em que tudo é tão escuro que parece impossível haver uma luz no final do caminho ou uma mão que te puxe para longe das trevas. O que nos resta é tatear como cegos à procura de algo que possamos agarrar, seja uma parede ou uma pessoa; a solidão absoluta é o maior monstro debaixo de nossas camas.

Ele, como tal, costuma se infiltrar em nossa mente, em nossos sonhos, e passa a ser temido durante o dia também. Enigmático, tem o poder de afastar para longe aqueles que tentam nos tirar de um pesadelo infinito, mas sabe de uma coisa? Somente nós podemos combatê-lo.

Maristella se lembrou infinitas vezes das histórias que seus pais contavam para ela antes de dormir; lembrou que, uma vez, sua mãe lhe disse que se um dia o pesadelo fosse sombrio demais, bastava olhar o céu na manhã seguinte e se lembrar que após uma longa noite, um maravilhoso dia aparecerá. Maristella seguiu o conselho da mãe.

Anos depois, ali estava ela; abraçou o sobretudo cor de areia ao redor do corpo e voltou seus olhos para aquele céu cheio de nuvens. Quase pôde ver o sorriso da mãe orgulhosa ao ver a filha que seguiu suas palavras. Quase pôde sentir o abraço firme daquele que estivera junto dela até seus 22 anos e que naquele prédio, naquele andar, naquela janela deixou de fazer parte da sua vida para entrar em sua história. Quase pôde ouvir as vozes dos fantasmas que a acompanhavam dia e noite incansavelmente. Naquele céu, quase enxergou a morada de cada um deles.

Ela não estava em casa. Mas ela estava em paz.

 

Texto de Beatriz de Aquino, aluna do 3º semestre de Jornalismo.

Foto: Ricardo Takamura